A mensagem de Guterres em 2025: o multilateralismo à prova de estresse
- Blenda Lara
- 23 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 12 de out. de 2025

Guterres inaugurou o Debate Geral com um diagnóstico sem eufemismos: “entramos numa era de perturbação irresponsável e sofrimento humano implacável” — um apelo para que líderes escolham cooperação e o Estado de Direito, em vez de poder bruto e impunidade. A moldura retórica não é mero alarmismo; é a tentativa de recentrar a ONU como guardiã de normas, num momento em que incentivos domésticos empurram governos para soluções unilaterais. O enquadramento do Secretário-Geral casa com a linha fundacional da própria ONU e foi ecoado por coberturas independentes, sinalizando convergência rara entre discurso institucional e imprensa internacional.
No eixo paz e segurança, Guterres explicitou a norma: nada justifica ataques terroristas — e nada justifica punição coletiva. Vinculou o caso Gaza às ordens obrigatórias da Corte Internacional de Justiça e exigiu sua implementação imediata. Ao fazer isso em plenário, ele move o debate do terreno político para o jurídico, reforçando o papel de cortes e tratados como “trilhos” do sistema, num ambiente onde o custo político de desobedecer decisões internacionais vem caindo. A imprensa registrou a ênfase e o vocabulário jurídico do discurso, algo que importa para capitais que medem riscos de reputação e sanções secundárias.
A outra perna do argumento foi estrutural: “os pilares da paz e do progresso estão vergando”. Aqui Guterres conectou conflitos interestatais (Ucrânia, tensões Irã-Israel), violência transnacional e erosão de capacidades estatais com assimetrias do sistema econômico — dívida, financiamento climático, arquitetura financeira internacional — pedindo compromissos verificáveis na redução de emissões e na reforma do sistema financeiro global. Em termos de teoria de RI, é a tentativa de reatar segurança e desenvolvimento numa agenda única, à la “segurança humana”, mas com instrumentos concretos: reprecificação do carbono, alívio e reestruturação de dívidas e novas janelas de liquidez.
O pano de fundo político é difícil: líderes chegaram a Nova York com agendas domésticas carregadas e narrativas concorrentes sobre o papel das instituições multilaterais. O contraste foi visível já na abertura: enquanto Guterres pedia centralidade do direito internacional, lideranças de grandes potências retestaram limites do discurso anti-globalista no próprio palco da ONU — lembrando que, sem custos domésticos, a cooperação multilateral vira bem público subfornecido. Essa fricção apareceu também na reação de outros chefes de Estado da América Latina e do Sul Global, que reivindicaram autoridade normativa e defenderam a ONU como arena legítima para conter aventureirismos.
Por que isso importa? Porque 2025 junta três tensões: (1) um Conselho de Segurança paralisado por rivalidades sistêmicas; (2) um déficit de legitimidade percebido por países de renda média e baixa; e (3) demandas urgentes — clima, IA, reconstrução pós-conflito — que exigem coordenação e recursos. A estratégia de Guterres foi, portanto, normativamente maximalista (reafirmar regras e decisões judiciais) e pragmaticamente incremental (arrancar compromissos setoriais mensuráveis). Em termos de “barganha de regime”, ele tenta elevar o custo de não cooperar, oferecendo, em contrapartida, uma narrativa de previsibilidade para investidores, doadores e governos.
Traduzindo em linhas de ação para chancelerias e assessorias estratégicas:
Ancoragem jurídica: tratar o cumprimento de ordens da CIJ e obrigações humanitárias como condição mínima para qualquer iniciativa diplomática de cessar-fogo/ajuda — e comunicar isso com métricas públicas.
Pacote clima-finanças: apoiar uma coalizão por reformas na arquitetura financeira (dívida, SDRs, bancos multilaterais) casada com metas de mitigação verificáveis — trocar “promessas” por calendários e indicadores.
Legitimidade inclusiva: dar tração à agenda de reforma de governança (representatividade e voz do Sul Global) para reduzir o espaço narrativo de atores que exploram o ceticismo anti-ONU.
Em síntese, Guterres não ofereceu um “novo consenso” — e seria irrealista esperar isso em 2025. O que ele propôs foi um “roteiro de contenção” da entropia internacional: travas jurídicas, marcos verificáveis e uma economia política da cooperação desenhada para sobreviver a ciclos eleitorais. Para quem olha de fora, parece pouco. Para quem negocia por dentro, pode ser a diferença entre mais um ano de deriva e um ponto de inflexão modesto, porém realista.
A crise financeira que a ONU atravessa hoje tem raízes múltiplas e efeitos severos: ela é alimentada tanto pelo inadimplemento e atraso de contribuições de Estados-membros — especialmente das grandes potências — quanto por cortes orçamentários internos e pressões políticas domésticas que deixam governos relutantes em aumentar repasses. Como consequência, a ONU se vê obrigada a reduzir drasticamente programas de ajuda humanitária e operações essenciais, prejudicando sua capacidade de resposta em crises globais. Nesse contexto, a Secretaria-Geral autorizou uma reestruturação de grande porte: mais de 6,9 mil demissões, equivalentes a cerca de 20% do quadro funcional, devem ser implementadas a partir de 2026 como parte do plano “ONU80” de adaptação ao novo cenário financeiro. Essa redução de pessoal gera um círculo vicioso: menos recursos operacionais, menor capacidade de executar programas, queda de legitimidade política e pressão para cortes adicionais — o que, se não for revertido com novo compromisso de financiamento dos Estados-membros, pode comprometer a sustentabilidade institucional da ONU no médio prazo.




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