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O palco e o silêncio: o "apagamento" do discurso da Presidente da Assembleia Geral da ONU

  • Foto do escritor: Blenda Lara
    Blenda Lara
  • 23 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

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Meus alunos sabem que, todos os anos, paro diante da televisão para acompanhar atentamente a abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas. É um ritual acadêmico e pessoal: observar como os discursos inaugurais se articulam, como a mídia internacional os transmite e, sobretudo, como as palavras ditas naquele púlpito reverberam no cenário global. Neste ano, antes de comentar o brilhantismo de António Guterres e de Luiz Inácio Lula da Silva, preciso registrar uma indignação.


Optei por assistir pela BBC, intercalando com CNN Internacional, CNN Brasil e Globo News. Após a excelente fala do Secretário-Geral, fui surpreendida: a transmissão foi interrompida, substituída por comentários jornalísticos. Nenhuma dessas emissoras deu voz à nova presidente da Assembleia Geral da ONU, Annalena Baerbock, a quinta mulher a ocupar esse posto em oitenta anos. O discurso dela foi silenciado. Vi apenas trechos na Jovem Pan e na BandNews — mas precisei recorrer ao canal oficial da ONU para ouvi-lo por inteiro.


Não se trata de detalhe. Baerbock foi devidamente saudada pelo Secretário-Geral em sua fala, mas na cobertura midiática, sua presença foi invisibilizada. Essa escolha editorial comunica algo: a fala da presidenta não teria a mesma relevância que a dos chefes de Estado ou do SG. Mas é justamente o contrário. A abertura da Assembleia pela sua presidente define o tom dos trabalhos de todo o ano. Silenciar essa voz não é apenas uma falha jornalística, é uma marca de gênero. É a demonstração de como ainda naturalizamos que mulheres, mesmo em posições de máximo prestígio na diplomacia multilateral, sejam secundarizadas.

Transmissão da CNN Brasil, a Presidente discursa e seu áudio é interrompido. Nada nas notícias remetem ao seu discurso.
Transmissão da CNN Brasil, a Presidente discursa e seu áudio é interrompido. Nada nas notícias remetem ao seu discurso.

E é grave. Porque Baerbock, em seu discurso, trouxe temas essenciais. Sob o lema “Better Together: unir esforços para forjar um futuro melhor para todos”, ela destacou a urgência de reforçar a unidade do sistema multilateral em um mundo marcado por mais de 120 conflitos armados e pressões financeiras sobre a ONU. Colocou-se como mediadora honesta, comprometida em acelerar o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável por meio de ações ousadas e transformadoras, como o Pact for the Future e a agenda UN80.


Mais do que isso, defendeu que a Assembleia seja um espaço inclusivo, com voz para todos os Estados, para a sociedade civil e para a juventude. Ressaltou a importância da transparência em processos decisivos, como a escolha do Secretário-Geral, e cobrou maior representatividade regional e de gênero. Em uma passagem emblemática, lembrou que em oitenta anos a ONU jamais teve uma mulher como Secretária-Geral — uma crítica que ecoa ainda mais forte quando percebemos que a sua própria fala foi abafada pela mídia.


Trata-se, portanto, de um discurso com densidade política, jurídica e simbólica. Ele poderia pautar a agenda internacional com a mesma força de qualquer chefe de Estado. Contudo, o alcance midiático foi mínimo. Isso nos obriga a perguntar: estamos realmente prontos para a paz, para lideranças femininas, para novos desenhos de mundo? O silêncio comunica. E nesse caso, comunicou muito.


Não gostaria de estar escrevendo este artigo. Mas ele ainda é necessário e toda e qualquer mulher entenderá. Entenderá quando sua liderança é ignorada ou sua fala é cortada. Entenderá quando a falha de um homem perante você é minimizada. Sim, ainda não estamos prontos para um mundo mais inclusivo e ocorrer isso no âmbito internacional é uma grande prova.


 
 
 

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© 2020 Revista Brasileira de Análise Internacional ISSN 2965-1727

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